César Gyrão, Mário Filho, Nelson Rodrigues, Alessandra Negrini, Ilzeli Confessor e os #velhosmalucos que seguem provando que skate não é só modalidade: é cultura, memória e vida andando.
Há homenagens que nascem de uma lembrança.
Outras nascem das provocações.
Esta nasce das duas coisas — e talvez de uma terceira: a teimosia dos que continuam amando aquilo que o tempo tenta, insistentemente, lhes arrancar.
A primeira homenagem vai a César Gyrão, o Editor Master Blaster da eterna Revista Tribo Skate, nossa derradeira, decisiva e eterna Revista Tribo, criada para registrar, organizar e projetar a cultura skateboard no Brasil.
Gyrão não foi apenas editor: Gyrão é um acervo ambulante do nosso Skateboard.
A segunda homenagem vai aos #velhosmalucos: folclóricos, icônicos e irascíveis Skatistas Originários do Brasil. Esses sujeitos "incomodam" desde quando andar de skate era demérito na sociedade, vergonha para a maioria dos pais e manifesto existencial para o mundo. “Jovens” com mais de meio século, que jamais deixaram de ser skatistas.
Entre eles há figuras que parecem desmentir o calendário. Ilzeli Confessor, por exemplo, aos 65 anos muito bem vividos, não envelhece: inventa manobra, anda como jovem, pinta o sete, sorri com a insolência de quem ainda conversa com a pista como se tivesse 20 anos. Posa de Fadinha. Posa de halterofilista. E não está nem aí para quem não paga seus boletos. O autor, em legítima provocação afetiva, costuma brincar que Ilzeli dorme numa banheira de formol — “não há explicação biológica suficiente para alguém atravessar décadas de skate e continuar andando com tamanha juventude de espírito.”
Sim, temos também as musas impossíveis dessa velha confraria. Alessandra Negrini, tão cinquentona quanto nós, segue no imaginário dos velhos malucos como se não tivesse envelhecido um único dia desde A Engraçadinha. Ela foi revelada numa minissérie baseada na obra de Nelson Rodrigues e ficou marcada como uma dessas presenças que o tempo até visita, mas não consegue domesticar. E os "Jovencitos" JAMAIS entenderão.
Não. Não se trata de negar o tempo.
Trata-se de saber que, no imaginário, na práxis, na obra e no legado de uma geração, obedecer ao calendário cronológico, às lógicas do mercado e ao senso comum seria uma violação.
Não.
Conosco, não.
É aqui que entram dois irmãos prodígios — não por acaso, aliás, NADA É POR ACASO: Mário Filho e Nelson Rodrigues.
Nestes tempos em que todos parecem querer ser o Real Madrid do skate, o Michael Jordan do skate, o império, a marca, o case, a máquina de performance, o unicórnio, o produto escalável e vendável, talvez seja bom lembrar de dois brasileiros que não precisaram empobrecer a CULTURA para engrandecê-la. É, o futebol, um dia, também foi propalado como Cultura.
E Mário Filho olhou para o futebol e percebeu que ele não era apenas esporte. Era família, bairro, domingo, rádio, jornal, rivalidade, promessa, frustração, multidão e catarse nacional. Foi um dos grandes nomes do jornalismo esportivo brasileiro. A ele se atribui, tradicionalmente, a popularização do termo Fla-Flu, síntese genial da rivalidade entre Flamengo e Fluminense; e o próprio Maracanã leva oficialmente seu nome: Estádio Jornalista Mário Filho.
E aqui se fecha o enlace.
Mário Filho nos deu o Fla-Flu.
Nelson Rodrigues nos deu Engraçadinha.
Um compreendeu a arquibancada.
O outro compreendeu o quarto, a sala, o pecado, a hipocrisia e a confissão.
Um inventou uma forma brasileira de narrar multidões.
O outro inventou uma forma brasileira de revelar o que a multidão escondia quando voltava para casa.
E o que isso tem a ver com skate? Tudo.
Nosso skate também tem seus Mários e seus Nelsons. Tem aqueles que editaram, fotografaram, imprimiram, narraram, guardaram, batizaram, publicaram e deram arquivo à cultura. E tem aqueles que viveram tão intensamente que se tornaram personagens rodrigueanos de pista, calçada, campeonato, bar, ladeira, session, briga, reconciliação e memória.
Os #velhosmalucos são isso: nosso Fla-Flu ambulante da Cultura Skateboard.
São rivais e irmãos.
Exagerados e geniais.
Irritantes e necessários.
Vaidosos, leais, contraditórios, inflamáveis e absolutamente vivos.
Eles não são “ex-skatistas”.
Essa expressão já nasce errada.
O skatista não vira ex-skatista.
No máximo, muda a velocidade, a dor no joelho, o horário da session e o tamanho da história que carrega.
O erro das modalidades modernas — e de certas gestões que tentam domesticar tudo — é imaginar que uma cultura cabe apenas no resultado. Não cabe. O skate não cabe só no pódio, na nota, no uniforme, na convocação, no release, no patrocínio, na live, na medalha, nas revistas que vieram depois, no organograma ou no story patrocinado.
O skate é também Ilzeli Confessor inventando manobra aos 65 anos.
É o velho maluco chegando no evento clássico e reconhecendo pelo olhar quem sobreviveu.
É o sujeito que não precisa acertar suas manobras antigas para continuar pertencendo. Precisa continuar inticando.
É a risada torta de quem viu muita gente posar de dono da cena e desaparecer.
É o abraço nos que ficaram.
É a memória que anda.
Por isso, homenagear Mário Filho e Nelson Rodrigues dentro do nosso skate é perguntar: quem é o Nelson Rodrigues, quem é o Mário Filho, da Cultura Skateboard?
Se toda cultura precisa de narradores, também precisa de personagens que mereçam ser narrados.
A Tribo Skate, nesse sentido, foi mais que uma revista. Foi uma arquibancada impressa. Foi uma certidão de existência para muita gente que, sem página, sem foto, sem legenda e sem arquivo, teria sido engolida pelo esquecimento.
César Gyrão pertence a essa linhagem de editores que entenderam uma coisa fundamental: cultura sem registro vira boato. E boato, com o tempo, vira propriedade de quem se apropria sem mérito.
E a nossa Central do Skate insiste no caminho oposto: registrar, narrar, tensionar, homenagear, criticar, guardar e devolver ao skate brasileiro a sua espessura humana, em todas as suas vertentes. Homenagear, prestigiar, celebrar, os Originários!
Porque a maior ameaça contra uma cultura não é apenas a perseguição externa. Às vezes é pior: é a sua redução interna. É quando tentam transformar uma cultura viva em modalidade sem alma. É quando tentam trocar história por performance, pertencimento por planilha, memória por clipping, rebeldia por protocolo, humanidade por branding.
E aqui vai mais uma provocação gratuita:
Se eles querem ser o Real Madrid do skate, se eles querem ser o Michael Jordan do skate, nós seguimos preferindo Engraçadinha na pele da eterna Alessandra Negrini! E o Dota, o Guto, a Verinha e o Chulé. O Magal, o Preto Velho e o Calmon. O Marcelão, o Paulinho e o Japão. O Kiko, o Claudemir Cabecinha e o Feiox. O Jeff Cocoon, o Feijão e o Mamão. O Roberto Hoho, o Tchimtcha e o Dinho. O Ratão, o Gema e o Paulinho… entre tantos outros velhos malucos irascíveis!
Quem sabe a verdadeira grandeza não seja continuar sendo aquilo que se ama, mesmo quando o corpo já reclama, o mercado já esqueceu, os oportunistas já trocaram de discurso e a nova geração já acredita que inventou ontem aquilo que alguns viveram há quarenta anos?
Os #velhosmalucos não são relíquias.
São arquivos vivos.
São bibliotecas com cicatrizes.
São Fla-Flus ambulantes.
São personagens dos nossos Nelson Rodrigues, com joelheira, shape antigo, memória e fumaça de tempo.
E talvez seja isso que incomode tanto: eles ainda fazem o que sempre fizeram:
Ainda riem.
Ainda contestam.
Ainda lembram.
Ainda amam.
Ainda se reúnem e brigam pelo que jamais deixarão de ser.
Skatistas.
A pergunta agora é: quem serão o Nelson Rodrigues e o Mário Filho do tal Skateboard?
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh.
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Texto: Frederico Manica
Publicação: Central do Skate
Edição e organização editorial: AG5 Conteúdo / Central do Skate
Tema: Cultura Skateboard, memória, crônica esportiva, jornalismo, literatura brasileira e os #velhosmalucos do skate nacional.
Dedicatória: A César Gyrão, Editor Master Blaster da eterna Revista Tribo Skate, e aos folclóricos, icônicos e irascíveis Skatistas Originários do Brasil.
Referências culturais: Mário Filho, Nelson Rodrigues, Fla-Flu, Engraçadinha, Alessandra Negrini, Ilzeli Confessor e a memória viva da Cultura Skateboard brasileira.
Série editorial: Crônicas da Cultura Skateboard / Memória Viva do Skate Brasileiro
Autor: Frederico Manica — escritor, editor, professor de skate desde 1995, fundador da ABC do Skate Brasil e criador da Metodologia A, dedicada à integração entre pesquisa, ensino e extensão na Cultura Skateboard.
Veículo: Central do Skate — plataforma dedicada ao registro, à crítica, à pedagogia, à memória e à defesa da Cultura Skateboard como fenômeno esportivo, educacional, social e cultural.
Nota da edição:
Este artigo integra o esforço permanente da Central do Skate de registrar personagens, linguagens, arquivos vivos, conflitos simbólicos e memórias fundamentais do skate brasileiro. Mais do que uma homenagem nostálgica, o texto afirma que uma cultura só permanece quando seus narradores, editores, personagens e praticantes originários seguem sendo reconhecidos, nomeados e preservados.
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Crédito:
Manica, Frederico Leal — Central do Skate
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Tags: Cultura Skateboard