O Nietskatista é um personagem crítico criado por Frederico Manica, surgido nos anos 2000 a partir da cultura dos fanzines. Ele expõe contradições do skate mainstream, e defende a ética, a liberdade e os valores originais do skateboard.
O Nietskatista nasce ainda na adolescência do escritor Frederico Manica. O escritor defendia, que, se Friedrich Nietzsche estivesse vivo nas décadas de 1980 ou 1990, seria skatista. Essa intuição juvenil — ao mesmo tempo filosófica e vivencial — amadurece no início dos anos 2000, quando o Nietskatista se consolida como um "personagem-limite", inseparável da luta do autor pela inclusão da Cultura Skateboard em espaços onde ela era sistematicamente proibida: clubes, escolas e instituições tradicionais.
O Nietskatista não é mascote, não é herói, não é caricatura dócil. Ele surge como instrumento crítico em tirinhas publicadas nos FANZINES da Cinco Continentes Editora, a partir de 2001, e que veio a ganhar consolidação imagética e conceitual na capa do livro Vem Comigo, Contos Gametas e Crônicas Cometas, também do autor, publicado em 2016.
Historicamente, o personagem emerge em um momento de inflexão da cultura skateboard: o avanço da profissionalização, a entrada pesada do marketing esportivo e de empresas não endêmicas, a padronização estética e a proliferação de um discurso motivacional pasteurizado. É exatamente nesse cenário que o Nietskatista cumpre sua função central: desvelar contradições.
O nome resulta de uma fusão deliberada e provocativa entre Nietzsche e skateboarder.
Aqui está o primeiro equívoco recorrente na leitura do personagem:
O Nietskatista não cita Nietzsche — ele encarna o incômodo.
Ele não filosofa para parecer profundo; ele expõe:
a moral de rebanho instalada na cena,
o ressentimento travestido de “opinião”,
a hipocrisia dos discursos de liberdade patrocinada,
a inversão de valores em que visibilidade vale mais que atitude e verdade.
Nas tirinhas dos fanzines, o Nietskatista atua como:
espelho desconfortável,
testemunha irônica,
voz que não pede licença.
Ele observa a cena skateboard de dentro, não como outsider, mas como alguém que se recusa a vender a própria trajetória — construída ao longo de décadas de luta contra tudo aquilo que tentou impedir a liberdade de ser, estar e continuar sendo dos Skatistas Originários.
Com o passar do tempo, o personagem passa a representar um tipo específico de skatista:
aquele que não romantiza o mercado,
que não cria idolatrias ou falsos ídolos baseados em narrativas midiáticas,
que não faz discursos vazios em competições tentando parecer aquilo que nunca foi,
que não transforma cinismo ou mentira em produto cultural.
Esse posicionamento tem custo.
O Nietskatista paga o preço do retorno à rebeldia dos anos 80, da defesa dos ideais originais, da recusa da conciliação fácil, do flerte consciente com a anarquia ética e da luta permanente contra instituições que flagelam, instrumentalizam e aviltam a Cultura Integrativa do Skateboard.
O Nietskatista não é contra o sucesso da esportivização desenfreada.
Ele é contra o sucesso obtido à custa da falsificação da cultura, privilégios e conflitos de interesses.
Na capa do livro, o Nietskatista atua como guardião narrativo.
Ele anuncia ao leitor suas incertezas diante do futuro e afirma o estilo de ser como obra realizável, não como status, imagem ou performance midiática.
Os Contos Gametas e as Crônicas Cometas operam nessa mesma lógica:
textos germinais (gametas),
textos que atravessam, colidem e perturbam (cometas),
ambos carregando crítica e memória.
O personagem, portanto, não ilustra o livro — ele o carrega, assim como o skatista carrega a Cultura Skateboard em tudo o que faz na vida, e não apenas sob holofotes, métricas ou mediações de mercado.
O conto do livro que encerra a mensagem do Nietskatista é entitulado Assim Andaria Zaratustra.
Com o passar dos anos, o Nietskatista deixa de ser apenas um personagem de tirinhas e passa a integrar uma cartografia crítica da cultura skateboard brasileira, especialmente no circuito independente.
Ele antecipa debates que hoje se tornaram evidentes:
cooptação cultural,
o mainstream como máquina de neutralização,
ativismo performático,
rebeldia patrocinada.
O Nietskatista não envelheceu.
O mundo é que se tornou mais parecido com aquilo que ele denunciava.