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O Skateboard Não Tem Dono: Privilégios, Abusos de Poder e Conflitos de Interesse no Skate Mundial

Frederico Manica

19/09/2026

Atualizado em 19/09/2026

Frederico Manica questiona os privilégios, os abusos de poder e os conflitos de interesse que limitam oportunidades e comprometem a integridade da cultura skateboard no Brasil e no mundo.

O SKATE NÃO TEM DONO

Uma conversa necessária com a comunidade mundial do skateboard

Por Frederico Manica

A luta por vantagens, benefícios e privilégios é muito mais antiga do que o skate. Atravessa séculos, fronteiras, governos, instituições e gerações. Onde existem oportunidades, existem também pessoas dispostas a controlá-las. Onde existe poder, existe a tentação de transformá-lo em propriedade.

O skate nunca esteve imune a isso.

Em diferentes lugares e momentos de sua história, a cultura skateboard enfrentou essas práticas, construiu alternativas e demonstrou que era possível fazer as coisas de outra maneira. Em outros ambientes, velhas relações de poder sobreviveram à profissionalização, à internacionalização e até à chegada do skate aos Jogos Olímpicos.

O mundo mudou. O skate mudou. Mas certas conversas continuam exatamente as mesmas.

Quando um skatista se destaca, conquista independência ou questiona uma decisão, não é raro ouvir que ele precisa aguentar o chamado fogo amigo. Que deve pagar o preço. Que talvez seja melhor sair do país. Que precisa esperar, porque um dia a sua hora chega.

Mas que preço é esse? Quem o estabeleceu? E quem concedeu a alguém o direito de cobrá-lo?

O problema começa quando a experiência de quem sofreu uma injustiça passa a ser utilizada para justificar a injustiça seguinte.

Há uma diferença enorme entre enfrentar as dificuldades naturais de uma carreira esportiva e ser obrigado a tolerar abusos, arbitrariedades, favorecimentos ou constrangimentos para continuar pertencendo ao ambiente em que se construiu uma vida.

A primeira situação exige perseverança. A segunda exige responsabilidade de quem tem o dever de impedir que ela aconteça.

E essa não é uma conversa exclusiva do Brasil.

O mundo é grande. As oportunidades nem sempre são.

Cada país possui suas disputas internas, suas relações de influência, seus interesses comerciais e suas particularidades culturais.

Mas essas disputas não acontecem em condições iguais.

Em países marcados por profundas desigualdades, onde milhões de pessoas ainda lutam pelo acesso à educação, à saúde, à segurança e a oportunidades elementares, o esporte frequentemente representa muito mais do que uma atividade recreativa.

Para alguns, é diversão. Para outros, é profissão, pertencimento, possibilidade de desenvolvimento e perspectiva de futuro.

E quando as oportunidades são escassas, a maneira como são distribuídas importa ainda mais.

Pensemos no Brasil.

Um país extraordinário, com uma cultura skateboard imensa, uma história internacionalmente reconhecida, gerações de talentos e pessoas que dedicaram a vida inteira à construção do skate.

Um país que recebe o mundo de braços abertos.

Mas como podemos oferecer oportunidades internacionais sem olhar para aqueles que ainda não tiveram acesso às oportunidades mais elementares dentro de casa?

Como podemos celebrar a chegada de atletas, profissionais e convidados estrangeiros enquanto skatistas locais continuam enfrentando dificuldades para obter uma inscrição, uma credencial, uma passagem, um espaço de treinamento ou simplesmente uma resposta?

Não se trata de fechar fronteiras.

Trata-se de perguntar quem está pagando pela festa.

O cobertor é curto. E, quando alguém decide quem ficará coberto, precisamos saber quais critérios orientaram essa escolha.

A internacionalização não pode servir de álibi para o privilégio.

O intercâmbio internacional é uma das maiores riquezas do skate.

Skatistas de diferentes países aprendem uns com os outros, compartilham experiências, desenvolvem técnicas, criam amizades e ampliam os horizontes de toda a comunidade.

É assim que a cultura cresce.

Entretanto, é preciso distinguir o intercâmbio verdadeiro da utilização de relações internacionais como instrumentos de prestígio e poder.

Quando uma crew, uma organização ou um grupo utiliza sua proximidade com nomes estrangeiros para conquistar reconhecimento, a pergunta não deveria ser apenas quem está chegando.

Deveria ser também quem está ficando de fora.

Quem recebeu a oportunidade? Quem foi preterido? Quem decidiu? Com quais critérios? Quais recursos foram utilizados? E qual benefício concreto permanecerá para a comunidade que recebeu o evento?

Convidar um estrangeiro não é, por si só, retirar uma oportunidade de um brasileiro. Mas, quando ambos disputam recursos ou vagas limitadas, a distribuição precisa ser transparente e justificável.

Não podemos aceitar que a hospitalidade brasileira seja transformada em moeda de troca para a manutenção de relações pessoais.

Muito menos que o prestígio de convidados internacionais seja utilizado para legitimar estruturas que não conseguem demonstrar sua própria contribuição à comunidade local.

O reconhecimento internacional não substitui a legitimidade construída dentro de casa.

Uma organização não se torna representativa simplesmente porque conhece pessoas importantes em outros países.

E uma crew não se torna guardiã da cultura porque consegue reunir nomes famosos numa fotografia.

A legitimidade precisa ter alicerces.

Trabalho, história, contribuição, responsabilidade e respeito às pessoas.

Sem isso, o prestígio pode ser apenas uma construção de fumaça.

Cortesia com o chapéu alheio.

Existe outra prática que merece atenção especial.

Projetos sociais, escolas de skate, professores, voluntários e organizações comunitárias realizam trabalhos que frequentemente exigem anos de dedicação, recursos próprios e enorme capacidade de resistência.

São pessoas que enfrentam as dificuldades cotidianas da comunidade. Que conhecem as crianças pelo nome. Que conversam com as famílias. Que abrem e fecham os portões. Que permanecem depois que as câmeras vão embora.

Esses trabalhos não deveriam se transformar em patrimônio publicitário de quem apenas se aproxima deles quando existe uma oportunidade de promoção.

Quando uma organização apresenta como sua uma iniciativa que não construiu, utiliza o trabalho de terceiros para valorizar sua imagem ou transforma projetos sociais em cenário de relações públicas, a questão deixa de ser apenas uma disputa por reconhecimento.

Passa a ser uma questão de integridade.

E precisamos perguntar também sobre os benefícios que circulam em torno dessas relações.

Credenciais especiais, pulseiras VIP, hospitalidade, viagens, acesso privilegiado, convites, proximidade com dirigentes e oportunidades comerciais.

Benefícios legítimos podem fazer parte da organização de um evento. O problema surge quando são utilizados para conquistar complacência, influenciar decisões ou preservar relações que deveriam estar sujeitas à fiscalização.

Quem oferece? Quem recebe? Por quê? Em troca de quê?

São perguntas perfeitamente razoáveis.

Não se pode fazer cortesia com o chapéu alheio e depois apresentar a generosidade como prova de compromisso com a cultura.

O skate não é um instrumento para que pequenos grupos vivam como grandes proprietários de um patrimônio construído coletivamente.

E trabalhar pela cultura não pode ser uma expressão capaz de justificar qualquer despesa, qualquer privilégio ou qualquer decisão.

A cultura não pode ser um salvo-conduto.

Existe uma frase que deveria despertar atenção sempre que aparece como resposta a um questionamento legítimo:

"Estamos fazendo isso pela cultura."

É possível que estejam.

Mas fazer algo pela cultura não elimina a obrigação de explicar como, para quem e em quais condições.

Uma boa intenção declarada não substitui uma prestação de contas.

Um evento bonito não torna automaticamente justas todas as decisões tomadas em sua organização.

A presença de grandes nomes não comprova a integridade de quem os convidou.

E o sucesso de público não demonstra, por si só, que os skatistas receberam tratamento adequado.

Há ainda um problema particularmente delicado: a utilização do desconhecimento de quem está fora do skate.

Patrocinadores, gestores públicos, jornalistas e representantes de instituições nem sempre conhecem a história da modalidade, suas regras, seus protagonistas ou a origem dos projetos que lhes são apresentados.

Essa distância entre quem conhece profundamente o skate e quem precisa tomar decisões sobre ele cria uma responsabilidade enorme.

Quando alguém utiliza esse desconhecimento para atribuir a si realizações alheias, construir versões convenientes da história ou apresentar favorecimentos como se fossem conquistas coletivas, não está fortalecendo a cultura.

Está comprometendo a confiança de quem acredita nela.

Por isso, transparência não pode ser uma exigência reservada apenas aos adversários.

Deve começar dentro de casa.

Quando o fogo amigo vira método.

Muitos skatistas que ajudaram a construir a história da modalidade conhecem o significado do fogo amigo.

Alguns encontraram resistência justamente entre pessoas que deveriam compreender melhor suas dificuldades.

Mas existe uma diferença entre reconhecer que isso aconteceu e aceitar que continue acontecendo.

A frase "comigo também foi assim" deveria servir para interromper uma injustiça, não para perpetuá-la.

O jovem deve ter paciência. O atleta deve pensar na carreira. O profissional deve evitar problemas. O organizador independente deve conhecer seu lugar.

E quem questiona precisa tomar cuidado, porque pode perder oportunidades.

Essa lógica produz uma espécie de obediência informal.

Não é necessário proibir alguém de participar quando se pode convencê-lo de que reclamar terá consequências.

Não é necessário declarar que o skate tem dono quando todos são levados a agir como se tivesse.

E quando dirigentes ou organizadores fazem vista grossa para abusos porque possuem relações pessoais, comerciais ou institucionais com os envolvidos, o problema ultrapassa o episódio individual.

Passa a envolver a própria estrutura que deveria oferecer proteção, imparcialidade e condições justas de participação.

O silêncio também produz consequências.

Não é maturidade aprender a suportar indefinidamente o que deveria ser corrigido. E não é rebeldia exigir que as regras sejam cumpridas por todos.

Uma conversa entre skatistas do mundo inteiro.

Esta reflexão é dirigida a todos os que fazem parte do skateboard, independentemente da nacionalidade.

Ao skatista que viaja para competir. Ao profissional que recebe um convite internacional. À marca que patrocina um evento. Ao dirigente que representa uma instituição. Ao organizador que administra oportunidades. Ao professor que mantém uma escola funcionando. Ao jovem que sonha em conhecer o mundo por meio do skate.

Todos têm lugar nessa conversa.

Não precisamos transformar estrangeiros em adversários para defender oportunidades locais.

Também não precisamos aceitar injustiças dentro de casa para demonstrar que somos bons anfitriões.

O intercâmbio precisa produzir benefícios reais para todos os envolvidos, especialmente para as comunidades que disponibilizam seus espaços, seus recursos, sua história e seu trabalho.

Um evento internacional deveria ampliar possibilidades, não apenas redistribuir privilégios entre pessoas que já possuem acesso.

Um projeto social deveria fortalecer seus participantes, não apenas melhorar a imagem de seus apoiadores.

Uma instituição deveria representar sua comunidade, não exigir submissão em troca de oportunidades.

E uma organização que reivindica o direito de falar em nome do skate deveria estar disposta a explicar quem a autorizou, quais interesses representa e como responde por suas decisões.

Não queremos que a nossa vez chegue para finalmente fazermos com os outros aquilo que fizeram conosco.

Queremos que ninguém mais precise esperar a própria vez para ser tratado com dignidade.

O skate nasceu e se desenvolveu pela iniciativa de pessoas que criaram espaços, inventaram possibilidades, construíram comunidades e desafiaram limitações.

Sua história não pertence a uma diretoria, a uma marca, a uma federação, a uma geração ou a um grupo de amigos.

Pertence também ao menino que chega hoje à pista, à menina que deseja competir, ao skatista sem patrocínio, ao instrutor que trabalha todos os dias, ao organizador independente e a todos aqueles que ainda nem descobriram o skate.

Quem dirige, organiza, patrocina ou representa uma instituição exerce uma responsabilidade, não um direito de propriedade sobre as pessoas.

E quem tem responsabilidade precisa aceitar perguntas, prestar contas, administrar conflitos de interesse e responder por suas decisões.

O skate pode atravessar todas as fronteiras do planeta.

Mas nenhuma fronteira atravessada, nenhuma fotografia com uma celebridade e nenhuma credencial internacional concede a alguém o direito de se apropriar daquilo que pertence a todos.

O skate não precisa de novos donos. Precisa de gente capaz de compreender que nunca teve dono algum.

Frederico Manica

EXPEDIENTE E CRÉDITOS

O SKATEBOARD NÃO TEM DONO

Uma conversa necessária com a comunidade mundial do skateboard.

Autoria: Frederico Manica

Edição e publicação: Central do Skate

Produção editorial: AG5 — Agência de Conteúdo

Editora: Cinco Continentes Editora Ltda.

Linha editorial: Cultura skateboard, integridade esportiva, governança, direitos e responsabilidade institucional.

Publicação: Brasil, setembro de 2026.

Site oficial: www.centraldoskate.com

SOBRE ESTE CONTEÚDO

Este artigo integra o trabalho editorial da Central do Skate, dedicado à reflexão crítica, à preservação da memória e à valorização da cultura skateboard.

A publicação propõe um debate sobre a distribuição de oportunidades, os conflitos de interesse, os privilégios e as responsabilidades de quem organiza, patrocina, dirige e representa o skate.

As reflexões e opiniões expressas são de responsabilidade do autor.

© 2026 Frederico Manica — Central do Skate / AG5.

Todos os direitos reservados. A reprodução integral ou parcial depende de autorização do autor e dos editores, ressalvadas as utilizações permitidas pela legislação aplicável.

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A cultura não tem dono.

www.centraldoskate.com

Tags: Skateboard, Cultura Skate, Cultura Skateboard, Integridade Esportiva, Governança Esportiva, Abuso de Poder, Conflitos de Interesse, Privilégios, Desigualdade Social, Justiça Esportiva, Oportunidades no Skate, Skate Brasileiro, Skate Internacional, Projeto