Manu Vaghetti constrói sua trajetória no skate com base cultural, formação esportiva ampla e respeito às etapas. Entre surfe, natação e street, afirma sua identidade sem pressa, unindo família, repertório corporal e desempenho consistente.
Manu Vaghetti: uma trajetória construída com tempo, cultura esportiva e respeito às etapas
Entre o skate, o surfe, a natação e outras experiências do corpo, Manuela Medeiros Vaghetti vem construindo sua caminhada sem atropelos, com base familiar sólida, formação ampla e uma relação autêntica com a Cultura Skateboard
Nem toda boa trajetória no skate nasce da pressa.
Nem toda atleta promissora precisa ser empurrada cedo demais para a lógica estreita da repetição, da cobrança excessiva e da especialização apressada. Há caminhos mais inteligentes, mais humanos e mais consistentes. Caminhos em que o esporte não sufoca a infância, não sequestra a curiosidade e não reduz a formação a resultado. A história de Manuela Medeiros Vaghetti, a Manu, aponta justamente nessa direção.
Conhecida na pista simplesmente como Manu, a jovem skatista de 12 anos vem construindo sua caminhada a partir de uma base rara e valiosa: contato amplo com o esporte, convivência familiar profundamente ligada ao cuidado com o corpo e respeito ao tempo natural de formação. Sua trajetória não é a de uma atleta moldada por urgência. É a de uma menina que cresceu cercada por práticas esportivas, referências técnicas, presença familiar e experiências complementares, até encontrar no skate sua forma mais forte de expressão.
Antes de se afirmar no Skate Street, Manu já transitava com naturalidade por diferentes modalidades. Ginástica artística, futebol, natação e surfe fizeram parte de seu percurso. Não como distrações laterais, mas como experiências reais de desenvolvimento corporal, percepção de movimento, coordenação, coragem, adaptação e repertório. Ela chegou, inclusive, a conquistar título em campeonato de surfe na Praia do Cassino e também em competição de natação no Clube Brilhante, em Pelotas. Esses dados não são curiosidades soltas. Eles ajudam a compreender uma formação esportiva mais rica, mais integrada e menos empobrecida pela obsessão de escolher cedo demais uma única trilha.
Foi no skate, porém, que Manu encontrou algo singular. Não apenas uma modalidade para competir, mas um ambiente em que pôde se expressar de maneira mais inteira. O skate apareceu como linguagem. Como espaço de presença. Como forma de testar o corpo, a coragem, a criatividade e também a identidade.
Filha de César Augusto Otero Vaghetti, professor de Educação Física, e de Marina Arejano de Medeiros, fisioterapeuta, Manu cresceu em um contexto familiar no qual o corpo, o movimento, o cuidado, a consciência física e o esporte sempre estiveram presentes de maneira estruturada. Esse dado é central. Não se trata apenas de ter pais que gostam de esporte, mas de crescer sob a influência de dois campos fundamentais para uma formação equilibrada: a Educação Física, com sua compreensão do desenvolvimento, da prática, do gesto e da progressão; e a Fisioterapia, com sua escuta do corpo, atenção à integridade física, prevenção e respeito aos limites.
Essa base ajuda a entender por que sua trajetória não foi conduzida por atalhos. Desde pequena, Manu acompanhava o pai e o irmão em sessões de skate e de surfe. Cresceu observando, convivendo, absorvendo o ambiente da pista, da praia, dos encontros e das rotinas esportivas. O skate não entrou em sua vida como imposição externa nem como projeto artificialmente montado. Ele foi se tornando parte de sua paisagem afetiva, cultural e cotidiana.
Por volta dos 6 anos, esse vínculo começou a se aprofundar. Manu passou a demonstrar mais interesse em ir à pista, descer rampas maiores, experimentar obstáculos mais desafiadores. O que se vê aí não é uma criança forçada a acelerar etapas, mas alguém cuja curiosidade foi sendo respeitada e acompanhada. Esse ponto é decisivo. Há uma grande diferença entre antecipar processos e sustentar uma evolução. No caso da Manu, o que parece ter existido foi uma construção estruturada, sem pular fases, sem violentar o tempo da atleta e sem transformar a infância em mera preparação para pódios.
Seu primeiro campeonato aconteceu em 2022, no Cassino, quando tinha 8 anos. Ficou em terceiro lugar, atrás de duas meninas mais velhas. O resultado foi bom, mas o traço mais importante daquela experiência talvez tenha sido outro: a boa relação com o ambiente competitivo. Não como obsessão, mas como experiência. Não como centro absoluto, mas como parte do caminho. Isso também revela maturidade na condução de sua formação. Competir apareceu como vivência, aprendizagem e desafio, e não como prisão identitária.
Em 2023, Manu venceu as quatro etapas do circuito da Zona Sul promovido pelo SESC, realizado no Cassino, em Pelotas e Bagé, sagrando-se campeã da categoria feminina. Foi um resultado importante, sem dúvida. Mas o valor mais profundo dessa conquista está no contexto em que ela ocorreu. Ela não foi fruto de um processo estreito, exaustivo e unilateral. Foi consequência de uma formação diversificada, de uma infância esportiva viva, de uma base familiar consciente e de uma relação saudável com a prática.
Outro aspecto importante de sua caminhada foi a entrada para o time da Wildmove, em 2022, quando passou a participar de treinos de Park em Pelotas, convivendo com outros atletas e treinadores. Embora sua inclinação tenha se voltado com mais força para o Street, essa experiência no Park foi importante como complemento formativo. Não no sentido de hiper especialização, mas justamente no sentido contrário: ampliação de repertório, contato com diferentes leituras de pista, desenvolvimento global de habilidades e amadurecimento dentro da Cultura Skateboard.
Essa passagem pelo Park reforça um princípio que deveria ser mais respeitado no esporte de base: modalidades complementares não atrapalham quando a formação é bem compreendida; elas enriquecem. O contato com o bowl, com outras dinâmicas de deslocamento, equilíbrio, tempo e tomada de decisão, contribuiu para a construção de uma base motora e perceptiva consistente. Ao mesmo tempo, o convívio com treinadores e atletas ajudou a fortalecer aspectos éticos, emocionais e comportamentais, tão importantes quanto a técnica.
Manu possui habilidade para Street e Park, mas nos últimos anos demonstrou interesse mais claro pelo Street. E aqui é preciso cuidado para não interpretar isso com a pressa típica do olhar competitivo. Sua escolha pelo Street ganha valor justamente porque não nasceu do fechamento precoce, mas de um percurso com variedade, observação, circulação e amadurecimento. Ela foi conhecendo, vivendo, experimentando e, aos poucos, identificando onde sua expressão ficava mais nítida. Isso é diferente de empurrar uma criança para uma definição definitiva antes da hora.
A própria presença da Manu nas pistas de Rio Grande, Cassino e Pelotas também carrega um significado importante. Ela é uma das poucas meninas que costumam treinar ao longo da semana nesses espaços. Isso fala de constância, mas também de pertencimento. Sua presença não tem o ar de exceção decorativa. Tem o peso de quem está ali porque faz parte, porque se construiu nesse ambiente e porque sustenta seu lugar com naturalidade e personalidade.
Sua personalidade forte também merece ser entendida com precisão. Não como dureza artificial, mas como traço de identidade, presença e autonomia. Manu parece reunir uma combinação importante: abertura para aprender, disposição para circular por diferentes experiências e firmeza para reconhecer aquilo com que mais se identifica. Em vez de uma atleta comprimida dentro de um roteiro único, surge uma jovem que vem desenhando seu caminho com base real.
Outro elemento que reforça essa leitura mais ampla é a maneira como ela se relaciona com seus apoiadores e com sua própria imagem esportiva. Seja usando camisetas e bonés de treinadores e marcas parceiras, seja mantendo em seu Instagram vídeos frequentes com identificação dos apoiadores, Manu demonstra desde cedo compreensão de pertencimento, reciprocidade e responsabilidade. Não é uma presença aleatória. Há consciência de vínculo.
Em 2025, sua caminhada alcançou um marco importante com o título de Campeã Gaúcha de Skate Street na categoria feminino mirim pela Federação Gaúcha de Skate. Na campanha, conquistou o primeiro lugar na etapa Restinga, em Porto Alegre, o segundo lugar na etapa Chico Mendes e o primeiro lugar na etapa Canoas. No mesmo ano, alcançou ainda o quarto lugar no ranking da Liga Gaúcha de Skate Street na categoria feminino open e o 14º lugar no Campeonato Brasileiro de Skate Street, em Curitiba. Assim, a evolução é natural.
Esses resultados têm mérito. Mas, no caso da Manu, eles devem ser lidos como consequência de algo maior. Não são o começo da história. São sinais visíveis de uma formação que respeitou a atleta, acolheu sua pluralidade, valorizou experiências complementares e não queimou etapas em nome da ansiedade adulta.
Manuela Medeiros Vaghetti representa uma forma lúcida de compreender o desenvolvimento humano. Uma forma em que o skate não anula outras vivências, mas conversa com elas. Em que a família não acelera artificialmente, mas acompanha com estrutura. Em que a formação corporal não se estreita cedo demais, mas se amplia. Em que a competição existe, sim, mas não engole o restante das experiências esportivas e culturais da atleta.
Num tempo em que tantos discursos esportivos confundem intensidade com excesso e comprometimento com afobação, a trajetória da Manu oferece outra imagem: a de uma jovem skatista que vem sendo construída com base, ambiente, diversidade de experiências, consciência corporal e respeito ao próprio tempo.
Principais conquistas
Campeã do Circuito SESC de Skate Street (feminino) – 2023
Venceu as quatro etapas do circuito realizadas em Rio Grande, Pelotas e Bagé
Campeã Gaúcha de Skate Street pela Federação Gaúcha de Skate – categoria feminino mirim – 2025
1º lugar – etapa Restinga, Porto Alegre
2º lugar – etapa Chico Mendes
1º lugar – etapa Canoas
4º lugar no ranking da Liga Gaúcha de Skate Street 2025 – categoria feminino open
14º lugar no Campeonato Brasileiro de Skate Street 2025 – Curitiba/PR
Ficha da Skatista:
Nome: Manuela Medeiros Vaghetti
Apelido: Manu
Idade: 12 anos
Instagram: @manuvaghettisk8 (monitorado pelos pais)
Modalidade: Skate Street
Filiação: César Augusto Otero Vaghetti e Marina Arejano de Medeiros
Apoios: Wildmove, Buldog, Catavento