Ganhar uma competição não transforma automaticamente alguém em vencedor. Cesinha discute vitória, derrota, ética, formação, pressão, humildade e legado no skate.
A vitória verdadeira começa onde termina o dia do pódio.
Por César Augusto — Cesinha
Esta matéria integra a série especial SOBRE VENCER! — Skate e sociedade, da Central do Skate. Uma sequência de reflexões sobre vitória, derrota, competição, formação, ética, mérito, caráter, reconhecimento e aquilo que o esporte revela — dentro e fora das pistas.
Imagine que o campeonato terminou.
A última volta foi dada.
As notas apareceram.
O resultado foi anunciado.
Um atleta sobe ao pódio.
Fotografias. Medalha. Troféu. Abraços. Publicações nas redes sociais.
Temos, sem dúvida, alguém que ganhou.
Mas será que temos, necessariamente, alguém que venceu?
Essa pergunta parece simples até começarmos a observar tudo aquilo que um resultado não consegue registrar.
Porque vitória não é apenas conquistar um primeiro lugar.
Também não é simplesmente subir ao pódio, receber uma medalha, levantar um troféu ou terminar uma competição com a melhor nota.
Para mim, vencer é alcançar paz de espírito. É superar os próprios limites, cumprir aquilo que se propôs a fazer, conquistar liberdade para realizar escolhas autênticas e construir um legado capaz de impactar positivamente as pessoas ao redor.
É aqui que começa uma distinção fundamental:
Ganhar depende do placar, da nota, da classificação, da posição final.
Vencer depende também daquilo que a pessoa se tornou durante a caminhada.
Há quem ganhe uma competição e saia dela menor do que entrou.
E há quem não suba ao pódio e saia dali muito maior — como atleta e como ser humano.
Existe uma pergunta incômoda que deveria acompanhar qualquer conquista:
O que foi necessário fazer para chegar até ela?
Uma vitória verdadeira não pode depender do abandono dos princípios que deveriam orientar nossa convivência.
Se, para alcançar determinado resultado, foi necessário desrespeitar, trapacear, humilhar adversários, atacar pessoas, atropelar companheiros ou esquecer todos aqueles que participaram da caminhada, talvez tenha existido um ganhador.
Mas há boas razões para perguntar se existiu um vencedor.
O resultado esportivo importa.
É evidente que importa.
Ele demonstra desempenho naquele momento, naquela prova, naquela categoria e dentro das condições oferecidas pela competição.
Mas o resultado não explica tudo.
Não mede sozinho o caráter.
Não comprova grandeza humana.
Não transforma qualquer conduta em aceitável.
Não apaga aquilo que aconteceu antes, durante ou depois da disputa.
Por isso, uma ideia aparentemente contraditória precisa ser enfrentada:
É perfeitamente possível ganhar — e ainda assim fracassar.
Em diferentes esportes, inclusive no skate, encontramos pessoas que conquistaram títulos, medalhas e enorme visibilidade, mas jamais conquistaram o mesmo reconhecimento humano dentro da própria comunidade.
Obtiveram o resultado.
Não obtiveram a legitimidade.
E isso deveria nos ensinar alguma coisa.
No skate, excelência técnica impressiona — e deve impressionar.
Uma manobra difícil.
Uma linha extraordinariamente bem construída.
Uma volta consistente.
A capacidade de acertar sob pressão.
Anos dedicados ao desenvolvimento de repertório, controle e precisão.
Tudo isso merece reconhecimento.
Mas a técnica não absolve a conduta.
Um atleta pode ser extraordinário sobre o skate e decepcionante na maneira como ocupa o mundo ao redor dele.
Pode conquistar resultados e, pelo caminho, perder respeito, espírito esportivo, gratidão e compreensão do coletivo.
O problema surge quando o resultado deixa de ser consequência de um processo de desenvolvimento e passa a ser instrumento permanente de afirmação pessoal.
É quando o “eu ganhei” começa a valer mais do que tudo aquilo que permitiu que esse atleta chegasse até ali.
E há um território no qual essa distorção se torna ainda mais perigosa:
a formação de crianças e adolescentes.
Há momentos em que o campeonato de uma criança deixa de pertencer a ela.
Passa a pertencer ao pai.
À mãe.
Ao treinador.
À equipe.
Ao patrocinador.
À expectativa dos adultos.
Uma colocação ruim começa a ser tratada como fracasso pessoal.
Um erro aparentemente simples vira motivo para uma cobrança completamente desproporcional.
Uma derrota parece autorizar broncas, comparações, constrangimentos, demonstrações públicas de desapontamento ou longas viagens de volta para casa em absoluto silêncio.
A criança não aprende apenas que perdeu.
Ela começa a aprender algo muito pior:
que decepcionou alguém porque perdeu.
E existe uma diferença gigantesca entre essas duas experiências.
Esse ambiente pode até produzir resultado imediato.
Pode produzir obediência.
Pode produzir crianças extremamente condicionadas à performance.
Pode até produzir medalhas.
Mas não deveríamos confundir isso automaticamente com formação de vencedores.
Porque um resultado obtido principalmente pelo medo é uma vitória muito frágil.
O campeonato deveria ser parte do processo de formação, e não um tribunal encarregado de decidir o valor de uma criança ou de um adolescente.
Agora façamos o caminho contrário.
Um skatista entra em uma competição.
Não vence.
Não sobe ao pódio.
Talvez nem chegue perto dele.
Mas naquele dia executa pela primeira vez uma manobra que perseguia havia meses.
Enfrenta uma pista que o assustava.
Consegue completar uma volta inteira.
Controla a ansiedade.
Volta depois de uma queda.
Cumpre aquilo que havia combinado consigo mesmo.
Respeita adversários.
Aprende.
Sai querendo continuar.
Pergunto: essa pessoa apenas perdeu?
Talvez tenha perdido a competição.
Mas venceu uma dificuldade.
Venceu uma insegurança.
Venceu uma limitação técnica.
Venceu a vontade de desistir.
Venceu uma versão anterior de si mesma.
O placar não registra tudo.
A classificação não mostra quanta coragem foi necessária para estar ali.
A medalha não mede amadurecimento.
Existem derrotas que ensinam muito mais do que algumas vitórias.
Existem atletas que jamais venceram determinada competição e permaneceram na memória das pessoas pela postura, pelo esforço, pelo respeito e pela maneira como trataram quem estava ao redor.
Por isso:
Perder não é necessariamente fracassar.
Fracassar pode ser não aprender nada com aquilo que aconteceu.
Pode ser repetir indefinidamente os mesmos erros sem reflexão.
Pode ser acreditar que um bom resultado autoriza qualquer comportamento.
Uma derrota pode fazer parte de uma vitória maior quando produz consciência, evolução e disposição para continuar.
Vencer também ensina.
Mostra que disciplina, organização, dedicação e responsabilidade fazem diferença.
Ensina que desejo sozinho não produz resultado.
É preciso treinar.
Preparar-se.
Aceitar correções.
Persistir quando o desenvolvimento parece lento.
Assumir compromissos.
Voltar.
Repetir.
Mas talvez uma das lições mais importantes da vitória seja justamente aquela que alguns vencedores têm maior dificuldade de aprender:
Quem passa a acreditar que já sabe tudo começa a perder exatamente quando pensa estar definitivamente vencendo.
Sempre existe alguém estudando.
Treinando.
Observando.
Criando.
Experimentando.
Evoluindo.
Nenhuma conquista passada garante automaticamente a próxima.
Por isso, a vitória saudável não deveria produzir uma sensação definitiva de superioridade.
Deveria produzir responsabilidade.
Quanto maior o reconhecimento, maior também passa a ser a influência daquela pessoa sobre quem está chegando.
A competição não é o problema.
Competir pode ensinar coragem, preparação, responsabilidade, convivência, controle emocional e capacidade de lidar com frustrações.
O problema começa quando a frase “é competição” passa a funcionar como salvo-conduto para qualquer comportamento.
Favorecimentos.
Pressões excessivas.
Humilhações.
Exclusões.
Injustiças.
Ataques.
Manipulações.
Tudo começa a ser justificado pelo resultado.
E, quando vencer passa a ser mais importante do que agir corretamente, o esporte começa a perder justamente uma de suas dimensões mais preciosas:
a dimensão educativa.
Quando o adulto vê somente a colocação, deixa de enxergar o processo.
Não vê o esforço.
Não vê o medo.
Não vê a evolução.
Não vê o aprendizado.
Não vê a criança.
Não vê o adolescente.
Às vezes, já nem vê o atleta.
Vê apenas o resultado.
O papel de um professor ou treinador de skate vai muito além de ensinar manobras.
Precisamos ensinar equilíbrio.
Preparar atletas para buscar excelência — sim.
Cobrar responsabilidade — evidentemente.
Exigir dedicação — quando necessária.
Ensinar alguém a competir para vencer — também.
Mas existe algo que não pode desaparecer nesse processo:
o valor de uma pessoa jamais poderá ser reduzido à medalha que ela ganhou ou deixou de ganhar.
Um treinador não deveria ensinar apenas como vencer.
Precisa ensinar como competir.
Como respeitar.
Como perder.
Como reconhecer o adversário.
Como aprender.
Como lidar com a frustração.
Como retornar ao treino no dia seguinte.
Como ganhar sem transformar a vitória em licença para diminuir os demais.
A derrota não encerra a formação.
E a vitória também não.
O trabalho continua depois do campeonato.
Por isso, o bom treinador não abandona quem perdeu — e também não transforma quem ganhou em alguém acima dos outros.
E precisa estabelecer um limite claro:
ambiente de aprendizagem não é ambiente de humilhação.
Ninguém deveria virar chacota, sofrer bullying ou ser sistematicamente diminuído porque apresenta maior dificuldade para aprender alguma coisa.
Cada pessoa possui seu tempo.
Isso não significa ausência de cobrança.
Significa outra coisa:
Cobrar sem destruir.
Corrigir sem humilhar.
Exigir sem desumanizar.
Existe ainda uma consequência da vitória sobre a qual falamos pouco.
Quem vence passa a ter responsabilidades.
Quando alguém recebe oportunidades, recursos, reconhecimento e visibilidade, suas atitudes começam a influenciar pessoas que talvez ele sequer conheça.
O atleta vira referência antes mesmo de decidir se quer ser referência.
Ao longo dos meus 39 anos como skatista e de seis anos organizando eventos, observei muitos tipos diferentes de vencedores.
Vi pessoas conquistarem resultados extraordinários sem conquistar o respeito correspondente dentro da comunidade, justamente em razão de suas atitudes.
E vi o contrário.
Competidores que não venceram determinada prova, mas permaneceram na memória das pessoas pelo carinho, pela postura e pelo respeito demonstrado.
No Rio de Janeiro, conheço atletas profissionais que fazem questão de comparecer a campeonatos amadores.
Não vão somente para serem vistos.
Vão assistir.
Conversar.
Dar dicas.
Incentivar.
Transmitir experiência.
Lembrar, de alguma maneira, que também começaram.
E alguns reconhecem que esse contato com quem está chegando renova inclusive a própria motivação para enfrentar novos desafios.
Essa presença diz muita coisa.
Ela demonstra que o sucesso não precisa afastar alguém da base.
Pode fazer exatamente o contrário.
O verdadeiro legado começa quando a conquista de uma pessoa ajuda a construir o caminho de outras.
Precisamos devolver a medalha ao lugar que realmente lhe pertence.
Ela é importante.
Pode representar anos de trabalho.
Pode ser motivo legítimo de orgulho.
Pode registrar uma conquista extraordinária.
Mas uma medalha demonstra, fundamentalmente, um resultado esportivo.
Ela não certifica caráter.
Não comprova superioridade humana.
Não transforma automaticamente ninguém em exemplo.
Do mesmo modo, perder não transforma alguém em fracassado.
O verdadeiro vencedor evolui sem precisar diminuir os demais.
Compreende que todos estão em desenvolvimento.
Alguns avançam rapidamente.
Outros lentamente.
Alguns lidam melhor com pressão.
Outros ainda estão aprendendo.
Todos enfrentam desafios que o público talvez jamais conheça.
Aos vencedores deveriam acompanhar responsabilidade, humildade e resiliência.
Aos derrotados, foco, perseverança e aprendizado.
E a todos:
compromisso com o coletivo, com o esporte e com a ética.
Talvez exista uma maneira simples de descobrir.
Espera.
Deixa o campeonato terminar.
Deixa desmontarem o pódio.
Guardem as faixas.
Recolham as placas.
Entreguem as medalhas.
Publiquem as fotografias.
Deixem passar a euforia daquele dia.
Depois observe o que permaneceu.
Se restou apenas um troféu em uma estante e uma fotografia no Instagram, pode ter existido um grande ganhador.
Mas, quando permanecem respeito, inspiração, aprendizado, evolução e exemplo para outras pessoas, alguma coisa muito maior aconteceu.
Ali talvez tenha surgido um vencedor.
O ganhador é alguém que os próximos competidores tentarão derrotar.
O vencedor pode ser alguém que fará os próximos competidores quererem crescer.
Existe muito disso no skate.
Há quem seja lembrado pela colocação.
E há quem seja lembrado por aquilo que representou.
O placar registra quem ganhou naquele dia.
A comunidade registra como aquela pessoa caminhou.
E o tempo, quase sempre, faz o julgamento que nenhuma súmula consegue fazer.
E talvez a pergunta mais importante não seja:
Talvez seja outra:
“Sobre Vencer!” é uma série especial da Central do Skate dedicada a discutir aquilo que existe por trás da vitória aparente: competição, derrota, mérito, ética, formação, pressão, caráter, responsabilidade, reconhecimento, legado e convivência.
Porque o skate também é uma maneira de observar a sociedade.
E a maneira como aprendemos a ganhar — e a perder — diz muito sobre a maneira como escolhemos viver.
A abordagem desta matéria dialoga com referências internacionais sobre esporte, educação, formação de jovens e ambientes esportivos saudáveis:
UNESCO — Values Education through Sport (VETS): programas que utilizam o esporte como ferramenta de educação em valores, participação, responsabilidade, inclusão e respeito.
https://www.unesco.org/en/sport-and-anti-doping/sports-values-education
American Academy of Pediatrics — Organized Sports for Children, Preadolescents, and Adolescents: relatório clínico sobre benefícios, riscos e responsabilidades de pais, treinadores e organizações no esporte juvenil.
https://publications.aap.org/pediatrics/article/143/6/e20190997/37135/Organized-Sports-for-Children-Preadolescents-and
American Academy of Pediatrics — Confronting Child Maltreatment in Youth Sports: discussão sobre bullying, humilhação, assédio e pressões inadequadas em ambientes esportivos juvenis.
https://publications.aap.org/pediatrics/article/150/1/e2021055816/188278/Confronting-Child-Maltreatment-in-Youth-Sports
World Health Organization — Physical Activity: referências sobre benefícios físicos e mentais da atividade física para crianças, adolescentes e adultos.
https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/physical-activity
Central do Skate
Cultura Skateboard, Educação e Formação Esportiva
Série Especial: SOBRE VENCER! — Skate e sociedade
Matéria: Vencer é mais do que ganhar — O que sobra quando o pódio é desmontado?
Autoria: César Augusto — Cesinha
Skatista, instrutor e docente do Colegiado da ABC do Skate Brasil — Rio de Janeiro
Editoria: Cultura Skateboard | Educação | Formação Esportiva | Ética | Competição | Sociedade
Pesquisa, organização editorial e redação final: AG5 — Agência de Conteúdo
Curadoria editorial: AG5 — Central do Skate
Publicação: Central do Skate & ABC do Skate Brasil
Tema: Vitória | Derrota | Ética | Formação | Esporte | Responsabilidade | Legado
Abordagem: Cultura Skateboard Integrativa | Formação Humana | Desenvolvimento Esportivo | Responsabilidade Pedagógica
Tags: Skate | Vitória | Competição | Educação | Ética | Formação Esportiva | Cultura Skateboard | Esporte Juvenil | Treinadores | Sociedade